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TEATRO DE ARENA
Estou desempenhando o meu papel- carbono: aqui está o seu nome como uma tatuagem no meu peito. Aqui, o acetinado para as suas mãos e o aéreo para uma viagem clandestina.
Já fui como um papel almaço muito bem pautado e com margens para as emendas e correções.
Amanhã serei algum papel de embrulho se não for um desses papéis de oficio com timbre e protocolo para comunicar oficialmente a seu marido
que entrei em gozo de férias ou de licença-prêmio com você.
Hoje eu sei me transformar nos papéis mais difíceis: ser bufão como um papel bouffant, faminto como um papel de arroz, discreto como um papel de alcova,
fino como um papel de linha, sensual como um papel de rolo para as nossas abluções. Mas também um autêntico linha-d’água só para ver você na contraluz.
Já representei papéis estrangeiros: China, Índia, Holanda, Japão. Você pode fazer de mim o seu correio, o seu papel-moeda ou papelão.
Quando você me receber, não me olhe de soslaio, apesar de ser muito bonita esta palavra. Me olhe de banda, que é a coisa mais linda, e me guarde no bolso da calça, bem em cima daquele sinal na coxa esquerda. Depois, antes que alguma coisa aconteça, me tire da cabeça.
Um dia, quando a roupa voltar da tinturaria e este poema perder seu significado, você me encontrará todo enrugado:
— Que papel será este? E por capricho me deitará no lixo.
poesia.net- www.algumapoesia.com.br- Carlos Machado, 2007
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